1. 1 - Emboabas Braia 4:39
  2. 2 - O Cururu do Ingaí Braia 2:41
  3. 3 - Serra das Letras Braia 3:56
  4. 4 - Pagode Mouro Braia 3:25
  5. 5 - Carrancas Braia 1:34
  6. 6 - Princesa do Sul Braia 4:28
  7. 7 - Ilhoas Braia 4:45
  8. 8 - Hipólita Braia 4:03
  9. 9 - Rei do Campo Grande Braia 4:50
  10. 10 - Ponta do Morro Braia 2:07
  11. 11 - Ventura (Mina) Braia 2:12
  12. 12 - Vertente Braia 2:50

Sobre o álbum

AUDIODESCRIÇÃO

É com muito orgulho que entregamos ao grande público o mais novo trabalho do Braia, “Vertentes de Lá e Cá”. Uma ode a Minas Gerais e sua história, num tributo sonoro e visual ao estado mineiro, em que seus personagens, marcos históricos e localidades são cantados e contados pela viola. São 12 faixas – instrumentais e cantadas – que mergulham na memória coletiva de Minas Gerais exaltando episódios como a Guerra dos Emboabas, a Inconfidência Mineira, o líder quilombola Ambrósio (Quilombo do Campo Grande), a Revolta de Carrancas e localidades como São Thomé das Letras, Ingaí, Prados, entre outros temas.

Além das peças musicais, cada faixa tem sua própria ilustração com textos e vídeos explicativos. Os vídeos são legendados e com tradução em libras reforçando o compromisso do projeto com a acessibilidade e a democratização da arte.

Você pode baixar também o encarte do disco que é totalmente ilustrado e contem todas as informações da obra, seus créditos e demais informações de cada faixa.

Todo o conteúdo de ‘Vertentes de lá e cá’ é gratuito e pode ser baixado neste site. O álbum “Vertentes de Lá e Cá” foi patrocinado pela Lei Paulo Gustavo do Estado de Minas Gerais.

1 - Emboabas
Braia - Emboabas

AUDIODESCRIÇÃO

 

Assim que tornou-se pública a notícia da fartura de achados de ouro no território que hoje conhecemos por Minas Gerais, um manancial de gente de outras capitanias e do reino de Portugal veio pra região a procura de enriquecimento rápido e prosperidade.

Os sertanistas paulistas que transpuseram a Serra da Mantiqueira se achavam os donos das minas e as reivindicaram. Mas vindos do norte, pelos caminhos da Bahia, outros brasileiros já haviam se instalado beirando o São Francisco e também se achavam no direito de explor0-las.

Os paulistas chamavam pejorativamente de Emboabas todo aquele que não fosse de São Paulo: baianos, cariocas, pernambucanos e não só os portugueses forasteiros como já se pensou.

O conflito encerrou-se com a vitória dos emboabas e os paulistas partiram rumo a oeste conquistando novas minas e territórios.

2 - O Cururu do Ingaí
Braia - O Cururu do Ingaí

AUDIODESCRIÇÃO

 

O Cururu é um ritmo de música folclórica brasileira, com forte influência indígena e portuguesa. É muito popular entre violeiros e sertanejos, um ritmo que remete imediatamente ao meio rural.

Já Ingaí, é o nome de uma cidadezinha situada no Campo das Vertentes, onde se queima uma das maiores fogueiras de São João aqui no Brasil. É um lugar rodeado de serras, canyons, picos, poços e velhos caminhos, onde tenho ligação familiar.

Ingaí também é o nome de um rio que passa pela cidade e que nasce na região de Aiuruoca e era chamado, nos séculos XVII e XVIII de Angahy (águas endemoniadas), rio este que desagua no rio Capivari (que nasce em Carrancas), que por sua vez desagua no poderoso Rio Grande que é o rio pai de toda a região.

3 - Serra das Letras
Braia - Serra das Letras

AUDIODESCRIÇÃO

 

Este é um local único, uma cidadezinha cheia de história, colonial, situada no alto de uma serra de pedras, agraciada com muitas quedas d’água, grutas, e envolta por diversas lendas e causos que envolvem barões, escravos, magos, comunidades, covens, extraterrestres, hippies entre outros: São Thomé das Letras.

A própria fundação da cidade é creditada a um milagre, à aparição de um santo a um escravizado que fugia de seu dono. Quem já passou algum tempo em São Thomé já ouviu muitas histórias de lá, desde a gruta do Carimbado que sai em Machu Pichu e diversas aparições inexplicáveis até hipóteses de lá ter funcionado um criatório clandestino de escravizados por conta de seu isolamento e dificuldade de se chegar.

Mas em verdade, trata-se de um paraíso natural e um local único. É a terra de Chico Taquara, um ermitão que vivia nas matas e cavernas e curava pessoas, animais, conversava com o povo do “mundo de lá” e que, inclusive, seria o título desta música, mas troquei de última hora, pois acho que criarei algo palavrado pra ele.

4 - Pagode Mouro
Braia - Pagode Mouro

AUDIODESCRIÇÃO

 

O elemento ibérico é fator constituinte da identidade brasileira, assim como a cultura e saberes dos povos originários e dos povos de África que, neste caldeirão formidável e porque não dramático da colonização, gerou nosso povo.

A Península Ibérica foi conquistada e dominada durante séculos por muçulmanos, originários do noroeste da África, chamados mouros. O reinado mouro na península durou quase 700 anos e a incorporação dos elementos árabes na cultura, música e imaginário daquele povo europeu se fez muito forte, tornando a produção daquela região, inclusive sua música, algo muito peculiar desde a Idade Média.

Um destes substratos assimilados e enraizados por aqui é o uso do modo mixolídio nas obras musicais, um modo que remete o ouvinte diretamente ao oriente, ao imaginário islâmico e afins, e que é também muito comum na música nordestina e muito presente na música do norte de Minas, de onde nasceu e cresceu o pai do pagode de viola, o mítico Tião Carreiro.

Esta peça é uma sapecada com este modo mixolídio embalada no ritmo do pagode, um pagode mouro.

5 - Carrancas
Braia - Carrancas

AUDIODESCRIÇÃO

 

Carrancas é uma pequena cidade da região do Campo das Vertentes no Sul de Minas, abençoada com uma natureza exuberante, repleta de serras, grutas, cachoeiras e muitos cursos d’ água.

É uma localidade antiga, pra onde foram muitos colonizadores à procura de terras férteis no ciclo do ouro e de onde partiram muitos outros para povoar outras áreas da região no entorno, como Lavras, Carmo da Cachoeira, São Thomé das Letras, Luminárias, entre outras, fazia parte do Caminho Velho da Estrada Real.

O nome “Carrancas” vem da constituição geológica da região, que em sua formação rochosa criou na serra formas que se assemelham a “caras feias”, “carrancudas”. Acredita-se que o início do arraial tenha se dado em torno da Capela do Saco.

Carrancas possui o maior trecho da Estrada Real dentro de um só município.

6 - Princesa do Sul
Braia - Princesa do Sul

AUDIODESCRIÇÃO

 

Essa é uma das formas pelas quais a cidade de Varginha é conhecida, a Princesa do Sul. Varginha está circunscrita em outro ciclo histórico aqui de Minas, o ciclo do café e é um polo de produção cafeeira e industrial do sul de Minas.

É a cidade pra onde me mudei aos meus doze anos e meio de idade, local em que fiz minha carreira e desenvolvi minha musicalidade. Porém o mais peculiar sobre a cidade nada tem a ver com sua terra fértil, mas sim com algo que veio do espaço sideral: a aparição de seres extraterrestres na cidade em 1996.

Conta-se que três meninas viram uma criatura extraterrestre ao voltar para casa certa noite. De fato, muitas coisas estranhas ocorreram na cidade naqueles dias e hoje Varginha é mundialmente conhecida pelo incidente.

7 - Ilhoas
Braia - Ilhoas

AUDIODESCRIÇÃO

 

Em 1723, chegavam ao Arraial do Rio das Mortes Pequeno três irmãs vindas dos Açores, mais precisamente da Ilha do Faial, eram elas Antônia da Graça, Julia Maria da Caridade e Helena Maria de Jesus, as três ilhoas.

Estas mulheres deixaram enorme descendência e a elas são atribuídas a formação de diversas famílias que se espalharam e povoaram grande parte do sudeste brasileiro, mas especialmente nas regiões do Campo das Vertentes, Sul de Minas e Zona da Mata mineira.

De Antônia da Graça vieram os Franco, os Junqueira, os Meirelles e Carvalho Duarte; de Julia Maria da Caridade os Vilela, os Garcia, os Reis, os Figueiredo, os Carvalho entre outros e de Helena Maria de Jesus vieram os Rezende. Ouve-se falar – com muito carinho – em todo o território mineiro das 3 ilhoas que vieram do Faial, matriarcas de Minas Gerais

8 - Hipólita
Braia - Hipólita

AUDIODESCRIÇÃO

 

Hipólita Jacinta Teixeira de Mello foi a única mulher a participar efetivamente da Inconfidência Mineira, movimento anticolonial que pretendia desvencilhar a capitânia de Minas Gerais do jugo português. Teve inclusive mais proeminência no movimento que alguns dos homens que foram condenados ao degredo perpétuo pelo crime de inconfidência.

Quando soube da traição de Silvério dos Reis, escreveu ao coronel Francisco de Paula Freire de Andrada para que iniciasse o levante a partir do Serro (ato declinado pelo militar) e avisou outros conjurados da prisão de Tiradentes e da traição de Silvério.

Hipólita nasceu em Prados em 1748 e viveu na fazenda Ponta do Morro, que herdara de seus pais. Era letrada, raridade mesmo entre homens à época, lia em português e francês e teve acesso a textos revolucionários e proibidos que traduzia para seu círculo de amizade.

Seu marido, Francisco Antônio de Oliveira Lopes foi condenado ao degredo e morreu na África e seu primo, Francisco José de Mello, morrera na cadeia de Vila Rica (hoje Ouro Preto), preso pelo crime de inconfidência.

Hipólita faleceu em 1828 e foi sepultada na Capela Mor da Matriz de Prados. Em 2025 foi reconhecida pelo estado brasileiro como heroína da Pátria e uma caixa com terra da fazenda da Ponta do Morro foi colocada em seu mausoléu no Panteão dos Heróis do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

9 - Rei do Campo Grande
Braia - O rei do Campo Grande

AUDIODESCRIÇÃO

 

Ambrósio foi o rei do Campo Grande. O “Campo Grande” era uma vastíssima extensão de terras que se estendia numa região entre a Comarca do Rio das Mortes na Capitania de Minas Gerais e a Comarca de Goiás, que pertencia à época à Capitania de São Paulo e depois se emancipou tornando-se a Capitania de Goiás.

Seu contexto se insere na “conquista do oeste” mineiro. Por se tratar de um sertão, área onde as instituições e leis do estado não alcançavam, o Campo Grande impregnou-se de quilombos.

Estes quilombos eram formados por homens e mulheres escravizados fugidos do cativeiros, negros e pardos forros e mesmo brancos pobres que fugiam da pesada tributação imposta aos mineiros (no caso o imposto da capitação, que fez com que muitas pessoas deixassem as vilas e mudassem de capitânia ou recorressem à vida nos sertões, em quilombos, etc ).

Acredita-se que estes quilombos respondiam a um quilombo principal que era chefiado por Ambrósio. Para povoar e ‘civilizar’ a região, a coroa portuguesa patrocinou diversas investidas contra os tais quilombos. Mestres de campo com tropas muito bem armadas lançaram-se sobre os quilombolas que mesmo em gritante desvantagem numérica resistiram a muitas batalhas sob a liderança de Ambrósio, que era apontado pelas autoridades como seu rei.

A primeira povoação do Ambrósio, desbaratada em 1746, se formou onde hoje temos o município de Cristais e o segundo Quilombo do Ambrósio, derrotado em 1759, se fez em uma área hoje pertencente ao município de Ibiá.

Muito afamado no século XVIII, citado por Tomaz Antônio Gonzaga em suas ‘Cartas Chilenas’ e em diversas correspondências oficiais das minas coloniais, a figura de Ambrósio sofreu um apagamento por parte das autoridades para que seu nome não insuflasse a massa dos oprimidos contra aqueles que os oprimem.

A memória é um campo de disputa, assim o é também a História, e que possamos fazer jus à figura deste que teve sua voz e vulto silenciados. Viva o Rei Ambrósio! 

10 - Ponta do Morro
Braia - Ponta do Morro

ÁUDIO DESCRIÇÃO

 

Este era o nome dado a uma das primeiras regiões povoadas de Minas Gerais, que ficava ao pé da Serra de São José – linda serra que hoje divide as cidades de Tiradentes e Prados.

Há referência a esta localidade, Ponta do Morro, nos primeiros relatos sobre Minas Gerais, inclusive no clássico “Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas”, de Antonil, do ano de 1711.

Com a abundância de ouro encontrado na região, logo surgiram os três arraiais do Rio das Mortes: Tiradentes, São João del Rei e Prados, sendo que “Ponta do Morro” foi um nome utilizado para designar este último.

Ponta do Morro foi também o nome de uma grande fazenda que ficava no pé da serra, no então arraial de Prados, onde se reuniam Tiradentes e outros partícipes da Inconfidência Mineira durante a conjuração.

11 - Ventura (Mina)
Braia - Ventura (Mina)

AUDIODESCRIÇÃO

 

Ventura é o acaso, a sorte enquanto condição potencial, mas é também uma alusão a Ventura Mina, um escravizado que liderou um levante dos seus em prol de sua liberdade na Freguesia de Carrancas, há dois séculos, no que passou à História como “Revolta de Carrancas”.

Ao dia 13 de maio de 1833, a ação se iniciou, Ventura e seus sequazes se levantaram e assassinaram o proprietário da Fazenda do Campo Alegre e partiram rumo à Bela Cruz, onde grande violência ocorreu resultando em muitas mortes.

Chegando à terceira das fazendas, a do Jardim, foram rendidos e Ventura morto. A insurreição foi desbaratada e resultou na maior pena de morte coletiva da história do Brasil, foram 16 pessoas enforcadas em praça pública, na cidade de São João del Rei.

Um dos condenados, Antõnio Resende, teve sua pena comutada, tornando-se o executor de seus comparsas e carrasco oficial da Comarca do Rio das Mortes.

12 - Vertentes
Braia - Vertentes

AUDIODESCRIÇÃO

 

Nesta peça, mesclo duas vertentes musicais bem distintas: a alma celta e a viola caipira.

Aqui temos duas jigas guiadas pela viola (a jig é um dos ritmos tradicionais da música irlandesa), a primeira tocada na afinação cebolão em Ré e a segunda em Rio Abaixo.

Este segundo movimento, a jiga em Rio Abaixo, é uma variação de um tema que compus pro Tuatha de Danann, chamado “Nick Gwerk”. Nicholas Georg Gwerk foi um irlandês que participou da Inconfidência Mineira e foi preso junto com Tiradentes. Ele viveu em Sabará, Ouro Preto e Diamanantina.

Pra esta obra, nada mais salutar que aludir ao primeiro irlandês que andou pelas Minas Gerais.

Vertentes de Lá e Cá

Data de Lançamento : 7 de julho de 2025
Artista : Braia
Gênero : Instrumental, Música Brasileira, Música Irlandesa, Rock Progressivo, Viola
Formato : CD

Gravado em Varginha, Carrancas e São Thomé das Letras,
entre 2024 e 2025, no Braia Studios por Bruno Maia
e Fabrício Altino.

Composto e arranjado por Bruno Maia.
Mixado e Masterizado por Thiago Okamura
Assistência Técnica e Edição: Rosildo Beltrão e Fabrício Altino

Capa e Ilustrações: Thiago Brito (@thiago_brito_tattoo)
Design Gráfico: Rodrigo Barbieri
Fotografia: Mirian Leite

Produzido por Bruno Maia